Seu Nóia! - Ad Infinitum

Oil Painting by Stevon Lucero
- Olá!
- Boa tarde!
Silêncio.
- Calor, não?
- O interfone está ali.
- O interfone?... Ah, sim, o interfone.
Silêncio constrangedor.
- O senhor vai ficar aí parado?
- Olha, senhor... – José Bonifácio, segundo seu crachá de porteiro. Diretamente dos livros de história para a guarita de um condomínio de luxo – preciso de sua ajuda.
- E em que posso lhe ser útil?
Me aproximei mais dele, para que ninguém ouvisse. Embora não houvesse uma viva alma por perto, todo cuidado ainda seria pouco. É como fiz o ditado: o seguro morreu de velho.
- preciso entrar um apartamento do quinto andar.
- Não há ninguém lá.
- Eu sei, mas logo haverá...
- Como você sabe?
- Isso não vem ao caso, o fato é tenho que estar lá quando essa pessoa chegar.
- Você está louco, meu chapa? Não posso deixar que entre... tenho cara de otário? Cadê o resto dos caras?
- Quais caras?
- Da sua gangue.
- Não, pelo amor de Deus! não é nada disso... eu estou sozinho, e estou desarmado, veja – levantei a camiseta, apalpei os bolsos da calça, tirei o sapato e até as meias para que não restasse dúvida das minhas boas intenções.
- Dá o fora, amigo; Não sei se você é louco ou só é bobo, mas o que me pede não posso fazer.
Arranquei do bolso a carteira e puxei duas notas de cinqüenta. Mostrei as oncinhas para ele. Depois, puxei mais quatro notas indênticas. Seus olhos brilharam, mas ele se manteve imóvel. Finalmente a cartada final: duas notas de cem. Raríssima. Tem gente que em todos anos de plano real nunca viu uma, a não ser pela Tv.
Os olhinhos pequenininhos do Excelentíssimo Bonifácio ficaram grandes e ainda mais brilhosos. Ele não resistiu aquela raridade e pegou uma das minhas mãos.
- Bonita né? Só vi uma vez... no banco eles só dão de cinqüenta.
- Pode ser sua...
Os olhos voltaram a ser pequenos. Seu Zé assumiu um ar sério e contido.
- Não posso, sou honesto
- Vai perder 500 mangos?
- Como vou saber se você não é um assaltante?
- Olha, eu juro que não quero fazer mal a ninguém. Quer uma prova? Te deixo aqui minha carteira de identidade... fica também com minha carta de motorista... Falta ainda minha licença para matar...
Seu José ficou branco e os olhos se arregalaram de novo.
- Brincadeira...
- Pois não brinque, meu rapaz... deixe eu ver as fotos... hum, é você mesmo. Passa grana aqui.
- Você não vai se arrepender.
- Eu espero mesmo que não. Qualquer coisa estranha eu ligo imediatamente para a polícia.
- Isso não será necessário.






