Junho 21, 2006

Seu Nóia! - Ad Infinitum


Oil Painting by Stevon Lucero

- Olá!
- Boa tarde!

Silêncio.

- Calor, não?
- O interfone está ali.
- O interfone?... Ah, sim, o interfone.

Silêncio constrangedor.

- O senhor vai ficar aí parado?
- Olha, senhor... – José Bonifácio, segundo seu crachá de porteiro. Diretamente dos livros de história para a guarita de um condomínio de luxo – preciso de sua ajuda.
- E em que posso lhe ser útil?

Me aproximei mais dele, para que ninguém ouvisse. Embora não houvesse uma viva alma por perto, todo cuidado ainda seria pouco. É como fiz o ditado: o seguro morreu de velho.

- preciso entrar um apartamento do quinto andar.
- Não há ninguém lá.
- Eu sei, mas logo haverá...
- Como você sabe?
- Isso não vem ao caso, o fato é tenho que estar lá quando essa pessoa chegar.
- Você está louco, meu chapa? Não posso deixar que entre... tenho cara de otário? Cadê o resto dos caras?
- Quais caras?
- Da sua gangue.
- Não, pelo amor de Deus! não é nada disso... eu estou sozinho, e estou desarmado, veja – levantei a camiseta, apalpei os bolsos da calça, tirei o sapato e até as meias para que não restasse dúvida das minhas boas intenções.
- Dá o fora, amigo; Não sei se você é louco ou só é bobo, mas o que me pede não posso fazer.

Arranquei do bolso a carteira e puxei duas notas de cinqüenta. Mostrei as oncinhas para ele. Depois, puxei mais quatro notas indênticas. Seus olhos brilharam, mas ele se manteve imóvel. Finalmente a cartada final: duas notas de cem. Raríssima. Tem gente que em todos anos de plano real nunca viu uma, a não ser pela Tv.

Os olhinhos pequenininhos do Excelentíssimo Bonifácio ficaram grandes e ainda mais brilhosos. Ele não resistiu aquela raridade e pegou uma das minhas mãos.

- Bonita né? Só vi uma vez... no banco eles só dão de cinqüenta.
- Pode ser sua...

Os olhos voltaram a ser pequenos. Seu Zé assumiu um ar sério e contido.
- Não posso, sou honesto
- Vai perder 500 mangos?
- Como vou saber se você não é um assaltante?
- Olha, eu juro que não quero fazer mal a ninguém. Quer uma prova? Te deixo aqui minha carteira de identidade... fica também com minha carta de motorista... Falta ainda minha licença para matar...

Seu José ficou branco e os olhos se arregalaram de novo.

- Brincadeira...
- Pois não brinque, meu rapaz... deixe eu ver as fotos... hum, é você mesmo. Passa grana aqui.
- Você não vai se arrepender.
- Eu espero mesmo que não. Qualquer coisa estranha eu ligo imediatamente para a polícia.
- Isso não será necessário.

Maio 08, 2006

Seu Nóia! - Ad Infinitum



- É o seguinte, queridinho: eu sei de uma pessoa que pode nos ajudar muito.
- Quem?
- Trata-se de uma senhora, já idosa... ela é muito mais velha que eu. Deve beirar os setenta.
- Não creio...
- Pois acredite.
- Ora, não exagere, isso é despeito.
- Que despeito o que, menino! Ela é mais velha sim, tá bom? Tudo bem, eu exagerei um pouco, vai... mas já passou dos 65, isso eu garanto. Ela não engana ninguém.. tem a cara toda esticada, viu? Uns pés de galinhas enormes... tá passada a coitada.
- Mas afinal, o que essa coroa pode fazer por nós?
- Por você, né amore? Eu não tô nem aí pra essa história.
- Sei...
- Bom mesmo que você sabe. Mas enfim... ela é caída pelo Henri. Sei por fonte segura, fidedigna.
- E daí?
- Ai, meu filho, ajuda aí, né? Tenho que explicar tudo... usa a dedução.
- Não entendo...
- Ai, Cristo... eu sei onde eles se encontram. E tenho um plano.
- Que tipo de plano?
- Essa velhota vai ajudar você a tirar o cachorro do Henri do seu caminho... e de uma vez por todas!


Logo me imaginei invadindo um enorme prédio na surdina. Entraria de cócoras, no meio da noite. Usaria uma toca cobrindo o rosto, caso algo desse errado e alguém me visse. Teria que verificar o sistema de alarme e o turno dos seguranças.

Mas logo vi que isso seria muito complicado.

Pensei em entrar como funcionário de uma empresa de gás. Já cansei de ver na Tv assaltos a condomínios de luxo levados a cabo dessa forma. O porteiro bobão não desconfiaria ao me ver com o uniforme da ultragaz.

Mas também acabei descartando essa hipótese. Eu sou péssimo para representar, fico nervoso fácil. Ia acabar colocando tudo a perder. .

Recorri mesmo ao bom e velho suborno.

Continua

Abril 02, 2006

Seu Nóia! - Ad Infinitum



- Henri está muito bem.
- Bem como?
- Ele não sente sua falta, se é isso que você quer saber.
- E quem disse que eu queria saber isso, mocinho? Eu só queria, assim... saber se ele está saudável ainda... você sabe que ele era muito saudável. Nunca vi um homem tão saudável.

Gargalhei do comentário, e ela me acompanhou.

- Ele anda seduzindo muitas ainda.
- Não me diga?
- Agora ele se preocupa com moças mais jovens.
- Como assim moças mais jovens? Quarentonas?

Mais gargalhadas. Mas dessa vez só eu ri. Ela manteve-se séria. Fiquei constrangido e continuei:

- Moças entre vinte e trinta anos.
- Ele me trocou por uma pirralha? Não me diga isso, meu Deus, que horror! Conte-me tudo. Agora!
- Henri e eu sempre fomos muito amigos. A senhora já havia percebido como nossa amizade era intensa. Andávamos sempre juntos, freqüentávamos os mesmos lugares. Partilhávamos dos mesmos gostos. Trocávamos roupas, carros – esses últimos as vezes por uma semana inteira – enfim, partilhávamos tudo, as vezes até mulheres. Mas eu nunca me envolvia de verdade. E ninguém dava crédito a ele. Vê-se que ele não vale muita coisa. Não quer nada sério com ninguém. Ora, que cara é essa? Vai dizer que você achava que ela era um anjo de candura? Quanto custava seu sorriso, sua ótima disposição, as noites inesquecíveis que ele lhe dava?
- Eu nunca me iludi quanto a isso.
- Que bom! Pois então, mas dessa vez eu me envolvi com uma pessoa. Uma pessoa correta, com valores, princípios. Alguém que valia a pena. Você me entende? Acho que finalmente estava com alguém que valia a pena.
- E o que houve com ela, meu bem?
- Henri entrou no meio, como sempre. No início eu resisti. Nós tínhamos nosso joguinho, nossas brincadeiras: com quem ela terminaria? Dois homens a sua escolha... Que vença o melhor! Uma brincadeira leviana! Nos divertimos muito, mas agora.... eu não sei, acho que não quero mais essa diversão.
- Sabe, querido, a vida nos prega peças às vezes. Olhe ao meu redor. Você pensa que eu tenho tudo, não é? Mas eu não tenho.
- E então tudo me enojou. A situação, o fato de estar brincando com essa mulher especial, a proximidade de Henri. Fiquei tão perto dele quanto jamais havia ficado.
- Mas o que houve afinal? Ela te largou?
- Eu não sei... ela não me atende mais, não quer me escutar. Por um tempo não pude ser um bom amante. Fiquei confuso. Confuso em relação a ela e a nós dois. Quem era ela afinal? Pensei que fosse um anjo. Depois vi que ela também podia cometer pecados. E depois de muito pensar, cheguei finalmente a conclusão de que ela é doce, e é pura.
- Já sei – a perua simpática se levantou, um tanto atônita – ela ficou assustada com esse triangulo de perversão e te largou?
- Creio que sim.
- E o que espera de mim?
- Afaste Henri dela.
- Ela está com ele?
- Não, claro que não... ela deve estar com nojo dele, assim como está de mim.
- Então...
- Ele a quer. Henri também compreendeu que o tempo das brincadeiras acabou.
- Entendo – ela sentou-se outra vez, pensativa, assimilando tudo o que eu havia dito. Essa batalha também é dela – eu sei como posso resolver seu problema.
- Nosso problema.

COntinua

Fevereiro 23, 2006

Seu Nóia! - Ad Infinitum



O sol estava escondido entre algumas nuvens negras. Iria chover em pouco tempo. Peguei uma sombrinha – isso mesmo uma sombrinha – e coloquei no banco detrás do carro.

O movimento era intenso, como sempre, e os faróis ainda me davam medo. Estava hiper ansioso para chegar ao meu destino. Bom seria que a pista fosse só minha, que não houvesse mais carro nenhum. E os faróis seriam removidos, pois já não teriam mais razão de existir. Caminho livre! É o que todos desejam.

Demorou uma eternidade, mas finalmente cheguei ao meu destino:

Um apartamento de luxo.

Era sempre bom estar num apartamento de luxo. Ou melhor, é sempre bom estar em qualquer coisa que seja de luxo. Carro, apartamento, casa, restaurante, bar, motel, hotel, etc.

A perua me recebeu animada, mas percebi no seu olhar que estava intrigada também.

Me serviu licor, contou-me algumas bobagenzinhas que tinha feito nos últimos dias. Olhava-me curiosa, farejava algo em mim. Fazia-me falar. Eu só a escutava. O papo dela era muito interessante para que eu a atrapalhasse com meus comentários. E eu sabia onde ela queria chegar.

A torturei por mais um tempo.

E por mais um longo tempo... e ela buscava um assunto, “o assunto”. E eu fazia com que esse assunto não chegasse. Ela só queria uma brecha... eu chutava para longe essa brecha.
Depois de muito, muito tempo, lembrei-me que tinha trabalho a fazer. Então finalmente acabei com aquela tortura.

Continua...

Janeiro 22, 2006

Seu Nóia! - Parte 10



Catarina está tão distante de mim nesses últimos dias.

Sei que estive em falta com ela. Não lhe dei o carinho e a atenção necessária. Sinto-me culpado pelas vezes que cheguei até mesmo a me esquecer que ela estava ao meu lado. E isso aconteceu com uma certa freqüência nas últimas semanas. Sentávamos a frente da Tv e eu me esquecia do mundo. De repente, não havia mais nada de físico ao meu redor. Nem a tv, nem o sofá, nem as paredes da sala, nem mesmo eu ou Catarina. Apenas minha mente e meus pensamentos.

Mas agora sinto sua falta. Gostaria tanto de tê-la aqui ao meu lado agora, enquanto escrevo. Onde será que ela está? O que anda fazendo? Por que não responde minhas mensagens?

Corri ao telefone e disquei o número de sua casa. Nada. Tentei o celular. Tocou, tocou, e ninguém atendeu. Liguei novamente e deixei um recado: “Amor, me procure. Se não me quer mais, não me ignore, por favor. Encare as coisas de frente e diga-me a verdade. Doerá muito menos do que ser ignorado. Antes rejeitado que ignorado”

Talvez não haja muita diferença entre esses dois termos: ignorado e rejeito... sim, acho que há sim.

Passaram-se dois dias e nada. Não liguei mais. Tão pouco deixei algum outro recado. Ela que se dane então, pensei. Foi quando o telefone tocou de forma diferente. Não me perguntem “como assim?”, não seria capaz de explicar. A campainha parecia soar de forma estranha, especial, sei lá, não sei dizer. Mas eu sabia que quando a campainha do telefone tocava assim, era Catarina me ligando.

E não deu outra.
- O que você quer dizer com não me ignore?
- Ora... quero dizer... não me ignore!
Ela soltou um riso forçado do outro lado da linha.
- Você está de brincadeira? Quem me ignorou foi você.
- Eu? Claro que não, meu amor... o que foi que eu fiz pra você estar dizendo isso?
- Ah, tenha santa paciência... se você não sabe o que fez, não serei eu quem vai lhe explicar. Ah, vai a merda!

E a ligação caiu neste exato momento. Esperei que ela retornasse, e nada. “Será que ela está achando que eu desliguei na cara dela?”

Dezembro 24, 2005

Seu Nóia! - Parte 9



Ao chegar em casa, tomei um banho quente, foi muito relaxante. Vesti uma roupa confortável e bonita. Dei uma arrumada na casa, separei vinho e champagne. Catarina escolheria qual tomar.

Quando ela chegou, a recebi com todo o carinho que sabia expressar. Nem sei se estava sendo verdadeiro, mas fiz de tudo para ser. Conversamos bobagens, rimos juntos. Eu estava mais calmo finalmente. Assistimos um pouco de Tv e subimos.

Na cama, ela me abraçou, me beijou, fez com que eu me sentisse protegido. Pela primeira senti-me protegido.

- Tem visto Henri? – ela me perguntou – estou com saudades dele. Você não está? – seu olhar era de malícia. Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

Respondi que não. Ouvir seu nome me fez mal. Lembrei outra vez do seu rosto, do seu corpo, do seu gosto. Senti nojo. Fiquei perturbado. Outra vez não pude satisfazê-la. Ela tentou me reanimar, mas nada fazia efeito. Não iria funcionar aquela noite.
Continua
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Dezembro 04, 2005

Seu Nóia! - Parte 8



Na rua pude sentir o frescor da manhã. Desejava que a brisa que soprava entrasse na minha alma e a lavasse. Não queria pensar em nada. Não queria fazer nada. Parei o carro numa praça e me sentei num banco. A cidade já estava acordada. Carros, pessoas, passarinhos que cantavam nas árvores próximas.

Estava com enjôo ainda. Sai de casa em jejum, por que não fui capaz de colocar nada na boca. Acho que se comesse vomitaria. Fiquei observando o movimento e cada vez que lembrava de Catarina, ou de Henri – principalmente de Henri – ou de qualquer coisa relacionada a sexo, eu sentia náusea. Uma forte náusea.

Procurei uma farmácia. Os remédios não fizeram muito efeito. Durante todo o dia não me concentrei em nada. Estava irritado, inquieto, com náusea e com medo. O que estava acontecendo comigo? Senti medo de mim mesmo, da minha vida.

Fui embora mais cedo e sabia que logo Catarina chegaria. Por que dei as chaves da minha casa a ela?

O que temia aconteceu. Ela chegou feliz e radiante. Chamou-me de vagabundo, cachorro, pilantra. Pediu que eu lhe desse um tapa na cara, mas de leve, claro. Eu me recusei. Naquele dia ficamos deitados na minha cama, pensando em nada. Bom, não sei quanto a ela, mas eu estava pensando em nada. Se é que isso é possível. Em alguns momentos até me esqueci que ela estava ali.

Ela se cansou e foi embora. Nos despedimos com um beijo na boca. Mas um beijo frio e sem gosto. Foi assim no dia seguinte. Acordei perturbado. Senti-me o pior homem do mundo. Não quis a mulher mais linda da face da terra, que estava deitada ao meu lado, louca para que eu a possuísse. Mas eu não pude, não pude!

Como poderia fazer algo, se estava enojado? Passei o resto do dia sentindo palpitações e enjôos. As pessoas me perguntavam se havia algo de errado comigo. Eu dizia que não. Apenas pequenos problemas da vida moderna. Me deixem paz! Queria gritar.

Decidi que ia me curar.
Continua
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